RAN GAVRIELI – Por que eu parei de assistir pornografia

Ran Gavrieli

[SAÚDE MENTAL] por Equipe Nowa!

Imagine algo que lhe dá muito prazer. Agora, imagine-se se satisfazendo por completo com isso durante alguns instantes. Ah, a sensação é muito boa, não é mesmo? Após o êxtase, aquele alívio, aquela calma… E a vontade de… querer mais. Muito mais.

Só mais um pouco. Agora sim… já deu? Ainda não? Só mais um pouquinho, então. Ei, espera aí.

Será que você não está exagerando? Opa, você precisa parar, amigão!

O quê?  Como assim não consegue?

É… e assim a história começa e já sabemos como vai terminar. Álcool, cigarro, sexo, drogas, jogos, pornografia… a lista de vícios é bem ampla.

Neste post dedicaremos especial atenção ao vício em pornografia virtual, tema amplamente discutido, porém pouco entendido pela maioria das pessoas.

Para trazer mais luz a essa questão, traduzimos e transcrevemos para o português a palestra de Ran Gavrieli, pesquisador da Universidade de Tel Aviv em Israel. Ran estuda o impacto que a pornografia exerce sobre as relações de gênero e quais são os prejuízos culturais que ela pode causar ao redor do mundo.

O texto da palestra de Ran é extenso, porém sugerimos a sua leitura até o final.

O que ele diz é algo que TODAS AS PESSOAS deveriam saber.

Principalmente se forem consumidoras assíduas de pornografia.

(Caso você acredite estar viciado em pornografia e não saiba COMO parar, recomendamos o site de nossos colegas: http://vicioempornografiacomoparar.com/).

*lembre-se: permitimos o compartilhamento de nossos conteúdos desde que sejamos citados como fonte. obrigado! :)

RAN GAVRIELI – TEDx Jaffa 2013 (TRADUZIDO e COMPLETO)

“Eu parei de assistir pornografia por dois motivos, basicamente. O primeiro deles foi a quantidade de raiva e violência que o pornô trouxe para as minhas fantasias sexuais. E essa raiva e violência não estavam lá no início, para começo de conversa.

Eu não queria mais aquilo para mim. Aquele não era eu e foi então que eu simplesmente decidi colocar um ponto final naquela situação.

Sei que é mais fácil falar do que fazer. Eu percebi isso mais tarde, mas enfim…

O segundo motivo foi porque eu comecei a perceber que somente por assistir pornô eu estava criando uma demanda por prostituição filmada – porque é isso o que a pornografia realmente é: prostituição filmada.

“Pornô” vem de prostituição e “grafia” vem de documentação.

E a prostituição não é o sonho de infância de ninguém.

Ao meu ver, é sempre o resultado de problemas, aflições e angústias.

Fui me dando conta disso aos poucos, quando eu trabalhava como voluntário ajudando homens e mulheres envolvidos com prostituição. Alguns deles, vítimas de tráfico humano, serviam em bordéis embaixo de pontes e nas esquinas.

Contudo, as pessoas não precisam fazer isso que eu fiz para compreenderem como o mecanismo de pornografia e prostituição realmente funciona.

A pornografia é um gênero e não tem nada a ver com erotismo ou comunicação sexual saudável.

É sobre homens dominando mulheres.

Subordinação de mulheres.

Não só como prática sexual, mas como um modo de ser. Mostra uma hierarquia de gênero neste mundo.

Se perguntássemos à pornografia: o que define algo como sexual?

O que qualifica, o que define algo como sexual? A pornografia iria rir na nossa cara.

“O que define algo como sexual”? Bem, qualquer coisa que os homens achem excitantes.

Os homens acham excitante sufocar uma mulher? Fazer sexo brutal, sem um toque, abraço, beijo, carícias? Bem, então isso é sexual.

Os homens acham excitante ver uma mulher ou uma criança chorar? Bem, então isso é sexual.

Os homens acham excitante o estupro de uma mulher? Bem, então isso é sexual.

Em cada galeria convencional de vídeos pornô na internet encontramos a categoria de estupro… lado a lado com a categoria de humilhação… com a categoria de abuso… com a de crime e assim por diante.

E tudo isso como se a pornografia habitual já não estivesse repleta desses temas. Mesmo nas suas versões mais brandas.

Mesmo nas versões mais brandas do pornô, o que ele está nos mostrando?

Em 80%, talvez 90% do tempo, ele nos mostra, na verdade, sexo sem mãos envolvidas.

E esta não é a forma como nós, seres humanos, autenticamente, desejamos.

Desculpe, vou repetir:

Sexo sem mãos envolvidas.

Ok.

Se você for continuar vendo pornô, na próxima vez em que assistir, repare que as câmeras não têm nenhum interesse em capturar quaisquer atividades normais de sensualidade, tais como afagos, carícias, amassos, toques, abraços, beijos… não!

O que as câmeras pornográficas querem é a penetração!

Então, normalmente, a composição da cena é: um homem (com sorte será apenas um homem) e uma mulher, com o pênis dentro dela.

Não importa onde dentro dela – em algum lugar dentro da mulher, ok?

E para não bloquear a câmera, cujo objetivo é o extremo close-up da penetração, o homem está de pé, com as mãos por trás das costas a maior parte do tempo.

E a mulher fica naquela posição desconfortável, precisando mexer com o pênis dentro dela, sem prejudicar o cabelo, borrar a maquiagem ou olhar para as câmeras (porque foi investido muito tempo e dinheiro nessa produção), sem atrapalhar o movimento agressivo do cara, e, principalmente, sem bloquear as câmeras.

Então, o resultado é duas pessoas fazendo sexo.

Tá, em diferentes posições, acrobacias, que seja.

Mas elas estão fazendo sexo, quando as únicas partes do corpo que realmente se tocam são… o pênis e a parte sendo penetrada.

Sem mãos envolvidas.

Eu dou palestras, talvez 250-300 vezes por ano, para soldados, estudantes, aprendizes e nunca ninguém me disse:

“Ran, sabe aquela parte do sexo sem mãos envolvidas? Então… eu sempre quis isso na verdade! Quando eu tinha 11-12 anos, eu nunca quis beijar ou tocar ninguém. Eu nunca tive curiosidade sobre beijo, eu só queria a penetração, desde o começo”.

Ninguém nunca me diz isso… – antes do pornô.

Depois do pornô, bem…

Nas minhas fantasias íntimas (antes de assistir pornografia) havia sempre uma narrativa muito forte… uma narrativa de sensualidade e reciprocidade.

Eu sempre imaginava: “o que eu diria àquela mulher”?

“O que ela possivelmente responderia”?

“Quais opções eu teria para responder em troca”?

Na vida real nunca funcionava como eu planejava, mas era muito importante na minha mente, em termos de excitação, a construção de uma história, de uma circunstância. Poder imaginar o local, o cenário… onde seria?

Quais seriam as circunstâncias para que eu e ela ficássemos sozinhos de repente?

Como o calor de nossos corpos surgiria passo a passo?

Isso era super importante! Antes do pornô.

Depois de fazer o pornô um hábito…

Bem….

Ele conquista a sua mente e invade o seu cérebro.

E aí eu perdi a minha capacidade de imaginar.

Eu me encontrava tentando me masturbar fechando os olhos… querendo desesperadamente fantasiar algo humano… e não conseguia.

Porque minha mente estava bombardeada com todas aquelas cenas de mulheres sendo violentadas, humilhadas e forçadas a fingir que gostavam de rituais espermáticos diabólicos.

Então, praticamente este é o resultado.

E todos nós estamos susceptíveis a pornografia, não somente os jovens.

Eu acho que todos deveríamos ser mais cuidadosos, não somente com o que colocamos em nossos corpos em termos de alimentação e nutrição, mas, principalmente com o que colocamos em nossas MENTES.

Qual é a nutrição das nossas mentes?

Tudo o que assistimos nos invade.

Vou dar um pequeno exemplo disso proveniente de áreas não sexuais.

Eu cheguei em casa uma noite e minha namorada estava assistindo algum lixo cultural. Um reality show de música, daqueles em que as cadeiras giram, coisa do tipo. Então, eu fiquei assistindo a esse show com ela por uns 20 minutos. E aquilo era tão chato e tedioso que eu perdi a paciência e fui tomar banho.

A parte mais interessante dessa história aconteceu quando eu estava no chuveiro.

Porque eu descobri que ali estava o meu ‘eu’ mais patético do que nunca. 

Demorei uns 10 minutos para perceber que eu estava debaixo do chuveiro pensando seriamente:

“Qual teria sido a minha música para o programa”?

Uma canção intensa e profunda, imaginem!

Eu não iria cantar Rihanna ou Lady Gaga. Não, não! Eu cantaria Mercedes Sosa – “Como um pássaro livre”.

Eu faria um cover de Blind Willie Mc Tell do Bob Dylan.

Isso soaria forte e profundo, não?

Foi então que eu percebi, naquele momento, que eu era um perfeito idiota.

Vejam, eu não tenho talento algum para música.

Mais do que isso, eu nunca quis ser músico, cantor ou compositor! Isso nunca foi uma parte do meu mundo interno de desejos!

Mas, eu sou um ser humano. O que posso fazer? Eu assisti ao programa por uns 20 minutos e aquilo ficou na minha cabeça por um bom tempo.

Então, vamos tomar esse exemplo para tentarmos medir ou estimar o impacto de 20 minutos de assistir “sei lá o quê”.

Como esse “sei lá o quê” invade a nossa mente e conquista as nossas vontades e desejos.

Vamos tentar imaginar qual é o impacto de 20 minutos assistindo pornografia uma vez, duas vezes por semana – de forma moderada.

É devastador.

A pornografia está em nossa casa, quer queiramos ou não e eu acredito que isso não combina com o nosso bem-estar.

E como temos internet, no mundo ocidental e em todo o lugar, em quase todos os telefones celulares, temos 90% dos meninos de 12 anos assistindo pornô regularmente.

Para mim, isso tem um efeito um tanto viciante quanto paralisante.

É viciante porque a pessoa desenvolve um tipo de dependência do pornô.

Mas a parte paralisante vem, principalmente para homens e meninos, porque a pornografia está nos ensinando que, como um homem, você somente é valorizado no sexo por ter um pênis grande e uma ereção eterna.

De acordo com a pornografia, ser um parceiro sexual valioso não significa ser sensual, apaixonado, atencioso, generoso, bem coordenado.

Não, nenhuma dessas coisas.

É tudo sobre ter um pênis grande e uma ereção eterna!

O que nós, homens, não possuímos!

Então os meninos ficam paralisados. E mesmo que eles não fiquem paralisados por verem pornografia, muitas vezes, eles se transformam em imitadores do que viram, ou seja, se tornam agressores.

Agressores mesmo quando há emoção envolvida. Existem muitos casos de abusos sexuais acontecendo hoje em dia dentro dos limites do que percebemos como belas histórias de amor adolescente ou relações adultas aparentemente saudáveis.

E isso tudo acontece porque nós realmente não falamos sobre sexo.

Nós apenas o vemos em todo o lugar, não falamos realmente sobre ele.

Então, o que se passa dentro de um quarto são todas essas mutações sexuais que acontecem.

E quando falamos das mulheres, a situação é ainda um pouco pior, mais delicada.

As jovens ainda recebem uma mensagem, não só do pornô em si, mas de toda uma cultura geral influenciada pela pornografia.

Você já viu algum clip da Miley Cirus ou da Lady Gaga? Comerciais?

Isso é pornô com roupas!

As meninas têm essa noção de que se você quiser ser digna de amor, em primeiro lugar você deve ser digna de desejo sexual. E agora a definição de desejo sexual é quase igual a ser como uma estrela pornô.

Essa é a mensagem que é passada a nossas jovens.

Eu trabalhei com dezenas de escolas de ensino fundamental e médio.

E em cada uma dessas escolas eu encontro meninas que, em um determinado momento, concordaram em ser filmadas num momento íntimo porque queriam agradar o cara do qual gostavam.

E, geralmente, esse cara abusa da confiança da moça.

É sempre a mesma história…

O cara divulga o vídeo no WhatsApp ou na internet. E normalmente ninguém o confronta ou o questiona em termos de moral. São sempre as meninas que sofrem com a vergonha e com a tortura. Elas podem até mudar de escola, o que geralmente acontece.

Mudam de escola, mudam de cidade e ainda assim são assediadas nas redes sociais. Elas desenvolvem depressões clínicas, distúrbios alimentares graves, como se não tivéssemos razões suficientes em nossa cultura para desenvolvermos esses transtornos.

Tornam-se tão isoladas socialmente que então, algumas delas, como Amanda Todd (descanse em paz), realmente cometem suicídio. Porque não encontram mais valor na vida ou em si mesmas.

Assim, a pornografia não está apenas em nossa casa.

Ela é um caso capital.

Não é um fenômeno pequeno em nossa sociedade.

É uma questão de vida e morte, às vezes.

É uma questão de vida e morte principalmente para as pessoas que fazem pornografia – porque o pornô não é uma encarnação da liberdade de expressão, da liberdade de ocupação e blá-blá-blá.

Não.

O pornô é a materialização da exploração sexual, andando lado a lado com o tráfico humano, com o estupro, cafetões e aliciamento.

Para cada estrela pornô com um contrato assinado ou uma empresa de produção temos centenas de milhares de mulheres e meninas que não sobrevivem lá fora. Literalmente, elas simplesmente não conseguem.

A indústria do sexo as mastiga e cospe de volta em bordéis, na indústria da prostituição, como acompanhantes ou em casas de massagem, com final feliz ou não (depende de para quem você pergunta).

E eu não estou brincando. Esse é o espectro da prostituição.

Assim, muitas delas nem sequer chegam aos 50 anos de idade. Estou falando de países em que a expectativa de vida está em 75-76 anos. Elas não chegam aos 50!

Por 4 razões principalmente: drogas, DSTs, serem assassinada por um cliente, cafetão ou namorado… e o quarto motivo é o suicídio novamente.

Se você é uma prostituta, na frente das câmeras ou não, você está em uma situação a qual nos referimos como morte social.

Todos nós já nos sentamos à mesa de jantar com pessoas que provavelmente já consumiram algum tipo de prostituição; que já foram a um bordel pelo menos uma vez ou duas. Nós nunca nos sentamos à mesa com uma prostituta. Não com uma declarada.

Isso é morte social.

Não é glamouroso. De modo algum.

E quando estamos na privacidade dos nossos quartos e assistimos filme pornô de forma gratuita – e eu espero que, caso você ainda esteja consumindo pornografia, você saiba disso – estamos criando uma demanda.

E onde quer que haja demanda, haverá fornecimento.

Existe uma correlação direta.

Se eu assisto pornografia de mulheres negras mais velhas, alguém vai sair e prostituir mulheres negras mais velhas.

Menores asiáticas? Alguém já está traficando menores asiáticas para filmar. Mulheres israelenses, mulheres palestinas, universitárias brancas e religiosas (essa categoria está muito forte nos últimos anos, é a próxima a crescer). A escória da Terra já está lá fora tentando aliciar e prostituir essas mulheres diante das câmeras.

Então, eu parei de assistir pornografia para o meu próprio bem-estar pessoal.

Minha comunicação íntima, minha vida erótica particular. Estou recuperando o controle e a responsabilidade sobre a minha mente.

Mas, acima de tudo, ao fazer isso, eu realmente deixei de contribuir com essa  indústria horrível de sexo… isso é uma boa coisa a se fazer, acredito eu.

E eu realmente gostaria de propor a vocês noção de sexo emocionalmente seguro.

Sim, sexo emocionalmente seguro.

Isso não significa ser conservador ou sexualmente reprimido. Sou totalmente a favor da liberdade sexual. Significa que basta colocarmos a hierarquia de gêneros de lado, a subordinação de lado, e trazermos de volta o riso como uma forma importante de intimidade.

Duas almas, dois seres humanos, sozinhos em sua privacidade podem, por favor, rirem juntos?

Não importa se eles se conhecem há uma década ou há uma hora. Se duas pessoas sozinhas em um quarto não conseguem rirem juntas, o que de bom poderá surgir dali, sexual ou não?

Isso é sexo emocionalmente seguro.

Tenho mais tantas coisas que gostaria de compartilhar com vocês, mas sinto que meu tempo está quase no fim, por isso, quero realmente pedir que nós falemos mais sobre essas questões.

Eu acredito fortemente que uma história de silêncio não pode, nunca, nos fazer qualquer bem – porque o silêncio apenas perpetua mais silêncio. Quando se fala abertamente sobre algo, geramos mais conversa, mais partilha, mais identificação, mais consciência, mais mudança.

Uma pequena mudança, mesmo que tenhamos vidas humildes.

Mas, que tenhamos uma mudança real e verdadeira.

Emocionalmente mais segura.

Obrigado pela atenção”.

Traduzido pela Equipe NOWA!

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MATHEUS FERRARI

CTO & Co-founder

NOWA! | Você ainda vai precisar.

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11 thoughts on “RAN GAVRIELI – Por que eu parei de assistir pornografia

  • 12 de novembro de 2016 em 21:40
    Permalink

    Profundo e verdadeiro, numa sociedade cada vez mais sádica e anárquica com os valores humanos e familiares.

  • 6 de julho de 2016 em 20:53
    Permalink

    Bom site. Gostei!

  • 28 de março de 2016 em 18:33
    Permalink

    Muito bom!

  • 28 de fevereiro de 2016 em 18:41
    Permalink

    Esse texto é mto bom!! Faz a gente refletir sobre muitas coisas. Obrigado por compartilhar!

  • 27 de fevereiro de 2016 em 0:04
    Permalink

    Show de bola esse texto! Realmente é uma situação preocupante…

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